Como calcular o custo real da mão de obra na marcenaria

A pergunta deste guia é quanto custa uma hora produtiva da equipe — e o que essa hora já contém, para não ser somada de novo no preço.

A chapa chega com preço. A hora muitas vezes chega como “um valor que parece justo”. Se essa hora for dividida por todo o tempo de relógio, o custo fica baixo demais: parte das horas não produz peça nem montagem. Se a mesma hora já carrega uma parcela de aluguel, essa parcela não apaga o aluguel do mês. O fechamento precisa identificar o que já entrou nos projetos e confrontar com a despesa ocorrida.

O exemplo é hipotético. Não é folha de pagamento de uma oficina real. A calculadora de mão de obra aceita as suas premissas. Este texto define o que cada premissa significa. O preço do móvel, depois que a hora existir, está no guia de preço.

O que este exemplo inclui e o que deixa de fora

Exemplo hipotético. Duas pessoas: quem toca a oficina e um auxiliar. A conta cobre só pessoal. Aluguel não entra na hora.

  • O pró-labore de R$ 6.000 é tratado como custo do trabalho de quem produz e coordena, não como lucro.
  • Vinte e dois dias, oito horas por dia, é capacidade de relógio — não é medição de uma oficina específica.
  • Trinta por cento de tempo não faturável é uma premissa escolhida para o exemplo. Não é pesquisa. Na sua oficina o percentual precisa ser estimado com honestidade ou medido.
  • Encargos do auxiliar estão simplificados num único valor. Este guia não calcula folha trabalhista.

Dividir pelo relógio inteiro abaixa a hora

No mês de relógio deste exemplo há orçamento que não fecha, limpeza de máquina, espera, deslocamento e retrabalho. Se o custo da equipe for dividido por todas as horas em que alguém esteve presente, cada hora vendável fica barata demais e o restante do tempo fica invisível.

Hora produtiva, aqui, é a hora que você aceita colocar num projeto. O restante não desaparece: ele reduz o divisor e, por isso, aumenta o custo de cada hora que sobra.

Some só o que for pessoal

  • Pró-labore: R$ 6.000
  • Auxiliar, salário e encargos simplificados: R$ 3.200
  • Benefícios e vale-transporte: R$ 400
  • EPI e treinamento do mês: R$ 150

6.000 + 3.200 = 9.200. Mais 400 = 9.600. Mais 150 = R$ 9.750.

Aluguel, energia, financiamento de máquina e lucro desejado não estão nessa soma. Se você incluí-los na hora, anote o valor incluído. A despesa real continua existindo. No mês, o que já está dentro dos projetos não entra de novo por cima; o que ficou de fora continua a ser reconhecido.

Divida pelas horas que podem ir para o projeto

22 dias × 8 h × 2 pessoas = 352 h de relógio.

Trinta por cento de 352 = 105,6 h não faturáveis. Horas produtivas = 352 − 105,6 = 246,4 h.

Custo hora = 9.750 ÷ 246,4 = R$ 39,57.

Política de arredondamento deste guia: a divisão usa precisão integral e o valor em reais que segue adiante é arredondado ao centavo. 9.750 ÷ 246,4 dá 39,5698…, publicado como R$ 39,57. Se o divisor for arredondado antes, 9.750 ÷ 246 = R$ 39,63. A diferença de seis centavos é outra política de arredondamento, não um segundo custo. O número usado daqui para a frente é R$ 39,57, com 246,4 h.

R$ 39,57 paga a equipe nas horas vendáveis. Não é o preço do móvel

Essa hora cobre, neste exemplo, pró-labore, auxiliar, benefício e EPI, diluídos nas horas que sobraram depois do tempo não faturável. Não cobre aluguel. Não é margem. Não é o valor que se cobra do cliente por hora, a menos que você decida, numa etapa seguinte, colocar margem em cima do projeto inteiro.

Se o tempo não faturável for maior do que 30%, o divisor cai e a hora sobe. Se for menor, a hora cai. Por isso copiar R$ 39,57 para outra oficina não faz sentido: as premissas não viajam junto.

Uma peça hipotética, só para ver a hora virar linha de custo

Guarda-roupa sob medida, também fictício, com 42 horas entre fábrica e montagem prevista.

42 × 39,57 = R$ 1.661,94 de mão de obra direta. Esse produto é exato: usa a hora já publicada. Multiplicar as 42 horas pela divisão antes de arredondar a hora dá 42 × (9.750 ÷ 246,4) = 1.661,9318…, que arredonda para R$ 1.661,93. O centavo de diferença não é erro de conta. É a escolha de orçar com a hora já arredondada.

Se a hora for arredondada para R$ 40 antes, 42 × 40 = R$ 1.680. Os R$ 18,06 de diferença são o arredondamento da taxa, não hora extra. Escolha um dos dois e use o mesmo no orçamento. Multiplicar por 39,57 e depois “completar” até 40 conta a diferença duas vezes se você também aumentar as horas.

Cobrar 20 horas quando a estimativa é 42 não é arredondamento. É 22 × 39,57 = R$ 870,54 que deixam de entrar no custo antes de qualquer margem.

Essa linha de R$ 1.661,94 entra no custo direto do móvel. A margem, se houver, aplica-se uma vez ao custo total do projeto, como no guia de preço. Este artigo não refaz essa conta.

Formar o preço com uma parcela não apaga o aluguel do mês

Premissa desta leitura: o exemplo é gerencial e hipotético. Não é demonstrativo contábil, não é regime de caixa e não substitui a folha. Considerar o aluguel na formação do preço não elimina o aluguel ocorrido.

Aluguel do mês: R$ 2.000. A taxa por hora, com a divisão integral arredondada ao centavo, é 2.000 ÷ 246,4 = R$ 8,12. Hora de pessoal já arredondada mais essa taxa: 39,57 + 8,12 = R$ 47,69. A parcela deste guarda-roupa parte da divisão integral e só então vai ao centavo: 42 × (2.000 ÷ 246,4) = R$ 340,91. Multiplicar pela taxa já arredondada daria 42 × 8,12 = R$ 341,04. A diferença de R$ 0,13 é política de arredondamento. Neste guia, a parcela do projeto é R$ 340,91.

Despesa total: R$ 2.000. Parcela alocada neste projeto: R$ 340,91. Valor ainda não coberto por este projeto: 2.000 − 340,91 = R$ 1.659,09. Os R$ 340,91 não justificam omitir o restante. Se só este trabalho for vendido, a oficina ainda tem R$ 1.659,09 de aluguel real fora do preço dele.

As 246,4 h são capacidade prevista da equipe, não venda já feita. Se todas essas horas fossem vendidas com a mesma taxa, a soma das parcelas encontraria os R$ 2.000. Se forem vendidas menos, sobra aluguel não coberto. Um rateio previsto para o orçamento não garante a recuperação integral no mês.

Quando um demonstrativo agregado já inclui as parcelas dos projetos, evitar duplicação é identificar esses valores e reconciliá-los com a despesa real. Neste único projeto, R$ 340,91 já estariam dentro do agregado. O que ainda falta reconhecer é R$ 1.659,09, não outros R$ 2.000 por cima. Lançar os R$ 2.000 inteiros sobre a parcela conta R$ 340,91 duas vezes. Deixar de lançar o aluguel porque “já foi para a hora” apaga os R$ 1.659,09 que este projeto não carregou. O guia de margem mantém o aluguel fora do custo direto do mês hipotético e o reconhece na linha de fixos. Se uma parcela já estiver dentro dos projetos, ela sai dessa linha e o restante permanece.

O pró-labore de R$ 6.000 já é a remuneração do trabalho de quem está na hora. A margem que vier depois, no preço do móvel, é adicional em relação a esse pró-labore. Ela ainda precisa cobrir o que ficou fora do custo direto, como o aluguel não alocado. Colocar “lucro do dono” de novo dentro dos R$ 9.750 e também tratar a margem inteira como se o fixo já estivesse pago conta a mesma expectativa duas vezes e esquece a despesa que ficou de fora.

Montagem, deslocamento e retrabalho pedem linha ou hora, não um achismo no final

Montagem em obra ruim consome hora que a fábrica não viu. Deslocamento pode ser hora da equipe ou um valor por visita. Os dois podem existir; não devem ser a mesma hora escrita duas vezes.

Retrabalho aceito pela oficina entra no custo real. Se ele já estiver dentro dos 30% não faturáveis, não lance as mesmas horas outra vez no projeto e também no percentual. Ou o retrabalho está no percentual do mês, ou está nas horas daquele móvel.

Terceirizar a montagem troca a hora interna pelo preço do montador mais a coordenação, a segunda visita e o material que ele não leva. Comparar só o valor por hora anunciado ignora esse resto. Se o montador substituir horas que já estavam nas 42, retire essas horas da conta interna. Somar os dois é pagar a montagem em dobro.

Erros comuns

  • Dividir o custo da equipe por 352 h e achar que R$ 27,70 (9.750 ÷ 352) é a hora vendável. Essa conta espalha o custo também sobre o tempo que não vai para o cliente.
  • Arredondar horas e taxa ao mesmo tempo, sem saber qual diferença ficou.
  • Tratar a parcela de R$ 340,91 como se ela substituísse os R$ 2.000, ou lançar os R$ 2.000 inteiros por cima de uma parcela que já está no custo do projeto.
  • Tratar pró-labore como lucro e ainda exigir que a margem inteira seja “o ganho do dono”.
  • Usar a hora deste exemplo em outra cidade, com outra equipe, como se fosse referência de mercado. Não é.

A calculadora de mão de obra não reproduz este exemplo. Nela, horas produtivas = dias × horas por dia × eficiência, sem campo de número de pessoas. Com 22 dias, 8 h e 70%, o divisor é 123,2 h de uma capacidade, não as 246,4 h desta equipe. O numerador dela é uma meta mensal: pró-labore + custos fixos + lucro desejado + reserva. Este artigo divide só o custo de pessoal (R$ 9.750) pelas horas da equipe. Se a meta fosse apenas esses R$ 9.750 e os outros campos ficassem zerados, a calculadora dividiria esse valor por cerca de 123,2 h e mostraria uma hora perto de R$ 79,14: o custo da equipe inteira sobre a capacidade de uma pessoa. A própria página da ferramenta usa ainda outra base, com meta que já inclui fixos, lucro e reserva. Este guia não altera a calculadora.

Encargos, faltas e curva de aprendizado não estão modelados. Trinta por cento é premissa do exemplo. Revise o divisor quando a equipe ou o tipo de serviço mudar. Nada aqui substitui folha de pagamento.

O que fazer antes de reaproveitar uma hora antiga

  1. Liste o custo de pessoal do mês. Se o aluguel ficar fora dessa lista, ele continua como despesa do mês. Se entrar na hora, anote a parcela de cada projeto e o que ainda não foi coberto.
  2. Separe horas de relógio e o percentual que não vai para projeto. Anote que o percentual é estimativa sua.
  3. Divida e guarde o valor arredondado que você vai usar, um só.
  4. Multiplique pelas horas do próximo projeto e coloque o resultado como custo, não como preço.
  5. Aplique a margem uma única vez no preço do móvel. A calculadora de mão de obra serve para as premissas dela, em horas de uma capacidade, não para repetir as 246,4 h deste exemplo.
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