Margem, lucro e markup: o que cada número significa na marcenaria
A pergunta deste guia é o que um valor já obtido significa: faturamento, recebimento, diferença depois do custo, margem sobre o preço e markup sobre o custo.
“Faturei R$ 38 mil” responde quanto foi vendido. Não responde quanto entrou no caixa, quanto custou entregar e quanto sobrou depois do aluguel. Trocar esses nomes é o que faz um mês cheio parecer lucro.
Os números são hipotéticos. Não são fechamento de uma marcenaria identificada. Para formar o preço de um móvel ainda não orçado, use o guia de preço. Para construir a hora que entrou no custo, use o guia de mão de obra. Aqui a tarefa é ler o número que já existe.
Premissas do mês hipotético
Exemplo hipotético. Três projetos reconhecidos como venda no mês. O custo direto não inclui aluguel. Os custos fixos do mês são uma linha separada de R$ 9.000.
- Faturamento dos três projetos: R$ 38.000.
- Custo direto agregado (material, ferragem, mão de obra direta, frete e deslocamento desses projetos): R$ 26.500.
- Custos fixos do mês, ainda não rateados dentro dos projetos: R$ 9.000.
- Dos R$ 38.000 faturados, R$ 22.000 entraram no caixa no próprio mês. O restante ficou a receber. Essa divisão é premissa do exemplo, não uma média de mercado.
Faturamento é o valor das vendas do período
Faturamento soma o que foi vendido ou reconhecido como venda. Não desconta custo e não espera o dinheiro cair na conta. No exemplo, o faturamento é R$ 38.000.
Recebimento é o que entrou no caixa
Recebimento, neste exemplo, é R$ 22.000. Os outros R$ 16.000 continuam faturados e ainda não recebidos. A margem não muda por causa do prazo: o preço e o custo direto são os mesmos. O que muda é o caixa.
Chamar os R$ 38.000 de “o que entrou” mistura as duas coisas. Uma oficina pode faturar bem e ficar sem dinheiro para a chapa da semana seguinte se o recebimento estiver atrasado.
Custo direto é o que aqueles projetos consumiram
No exemplo, R$ 26.500. Material, mão de obra direta, frete e deslocamento ligados a essas vendas. Premissa: o aluguel não está nessa soma. Por isso os R$ 9.000 de fixos, mais abaixo, reconhecem despesas que ficaram de fora. Se parte do aluguel já tivesse sido incluída nos R$ 26.500, o fechamento identificaria esse valor e reconheceria só o que ainda não está no agregado. A despesa ocorrida não deixa de existir por ter entrado na formação do preço.
A diferença dos projetos ainda não é o resultado da oficina
Diferença = faturamento − custo direto
38.000 − 26.500 = R$ 11.500.
Esse valor ainda carrega os custos fixos. Resultado operacional simplificado do exemplo:
11.500 − 9.000 = R$ 2.500.
Os R$ 2.500 também não são caixa. O caixa do mês depende dos R$ 22.000 recebidos, das contas pagas e do que ficou a receber. Margem, lucro e saldo bancário respondem a perguntas diferentes. O simulador de lucro projeta cenários com os dados que você digitar; ele não transforma este mês hipotético em previsão da sua oficina.
Margem é percentual do preço
Margem = (preço − custo) ÷ preço
Projeto hipotético isolado, diferente dos três acima: preço R$ 12.000 e custo direto R$ 8.400.
(12.000 − 8.400) ÷ 12.000 = 3.600 ÷ 12.000 = 30% de margem.
No mês inteiro, a margem sobre o faturamento, antes dos fixos, seria 11.500 ÷ 38.000 = 30,3%. Depois dos R$ 9.000, o resultado de R$ 2.500 representa 2.500 ÷ 38.000 = 6,6% do faturamento. As duas porcentagens estão certas e não descrevem a mesma coisa. A primeira é a folga dos projetos. A segunda é o que sobrou depois do fixo.
Markup é percentual do custo
Markup = (preço − custo) ÷ custo
No projeto de R$ 12.000: 3.600 ÷ 8.400 = 42,86% de markup. A margem é 30%. Quem ouve “coloquei 30%” precisa perguntar: trinta por cento do preço ou trinta por cento em cima do custo?
Manter o markup quando o custo sobe não significa financiar o cliente. Significa o contrário, se a base do markup for o custo novo e completo.
Se o custo desse projeto passa de R$ 8.400 para R$ 9.240 (dez por cento a mais) e o markup de 42,86% é reaplicado sobre o custo novo, o preço vai a 9.240 × (12.000 ÷ 8.400) = R$ 13.200. A margem continua 30%: (13.200 − 9.240) ÷ 13.200 = 3.960 ÷ 13.200. O aumento do material foi repassado.
Quem absorve o aumento, quando o preço antigo é mantido, é a oficina. Preço travado em R$ 12.000 e custo novo de R$ 9.240 deixam diferença de R$ 2.760, margem de 23% (2.760 ÷ 12.000) e markup de 29,87% (2.760 ÷ 9.240). Isso não é “manter o markup”. É abandonar o markup anterior para não mexer no preço.
Financiar o cliente, no sentido de caixa, é outro fato: vender a prazo. O faturamento existe e o recebimento não. Isso não é causado pelo markup. Se você quiser cobrar pelo prazo, escreva um custo financeiro. Não o dê a entender como se fosse consequência de ter mantido o percentual sobre o custo.
Como revisar uma proposta que já saiu
Reconstitua o custo direto da proposta. Sem esse custo, o desconto não tem margem para ser julgado. No projeto hipotético de R$ 12.000 com custo de R$ 8.400:
- Desconto de 10%: preço novo = 12.000 × 0,90 = R$ 10.800.
- O custo não cai junto. Continua R$ 8.400.
- Diferença nova: 10.800 − 8.400 = R$ 2.400.
- Margem nova: 2.400 ÷ 10.800 = 22,2%.
A margem foi de 30% para 22,2%. Caiu 7,8 pontos percentuais, cerca de um quarto da margem original (7,8 ÷ 30), não “quase a margem inteira”. O desconto de 10% sobre o preço consome R$ 1.200 dos R$ 3.600 que existiam entre preço e custo — um terço dessa diferença em reais. São duas leituras. As duas precisam ser ditas com o número, não com uma frase genérica.
Outro caso hipotético, em que o desconto zera a diferença: preço R$ 10.000, custo R$ 9.200, margem de 8%. Um desconto de 8% leva o preço a R$ 9.200. A diferença fica zero. Aqui o percentual de desconto coincidiu com a margem porque a margem já era pequena. Não é uma regra geral.
A calculadora de desconto testa o limite com os seus dados. Ela não substitui a reconstituição do custo. O teto a partir de custo, reserva opcional e margem mínima escolhida está no guia de desconto. O que o texto da proposta precisa mostrar está no guia de proposta.
O que não transportar duas vezes entre o projeto e o mês
- Se a hora da mão de obra já inclui uma parcela do aluguel, essa parcela está dentro dos custos dos projetos. Ela não apaga o aluguel do mês. Identifique o valor incluído e confronte com a despesa real; o que não entrou nos projetos continua descoberto. Lançar o aluguel cheio por cima da parcela conta duas vezes só a parte já incluída. Omitir o aluguel porque ele “já foi para a hora” deixa de reconhecer o restante. O guia da hora mostra aluguel de R$ 2.000, parcela de R$ 340,91 num projeto e R$ 1.659,09 ainda não cobertos por esse projeto.
- Margem calculada sobre o custo direto ainda precisa cobrir as despesas que ficaram fora desse custo. Chamar a diferença inteira de lucro da oficina, antes desse confronto, superestima o resultado. O erro oposto é lançar de novo, por cima, um valor que já foi identificado dentro do custo agregado.
- Se o pró-labore já está no custo da hora, ele não é “o lucro” de novo no fim do mês. Lucro, nesse desenho, é o que sobra depois desse pró-labore e dos demais custos que você listou.
- Não some recebimento com faturamento. São recortes do mesmo contrato em momentos diferentes.
Erros comuns
- Tratar faturamento como saldo de banco.
- Olhar só a margem do projeto e não descer até o fixo do mês.
- Comparar 30% de margem com 30% de markup como se fossem a mesma decisão.
- Aceitar desconto sem recalcular a margem no preço novo.
- Dizer que markup constante financia o cliente. Markup constante sobre o custo novo repassa o aumento. Preço travado é que absorve.
Isto é um roteiro de leitura, não um demonstrativo contábil. Regime de caixa e regime de competência, imposto e pró-labore dependem de como a sua oficina registra cada item. O simulador usa apenas o que for digitado.
O que fazer com o último mês
- Liste o que foi faturado, separado do que foi recebido.
- Some o custo direto desses projetos. Se alguma parcela de fixo já estiver dentro da hora, anote o valor incluído.
- Reconheça as despesas reais que ficaram de fora. Se uma parcela já entrou na soma anterior, confronte e não a lance inteira de novo. O que não entrou continua descoberto.
- Calcule a margem de cada proposta ainda em aberto antes de oferecer desconto.
- Use o simulador de lucro com as suas premissas, não com os R$ 38.000 deste exemplo.